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domingo, 2 de março de 2014

Crimeia: A menina dos olhos do Império Russo.


Na última vez que foi visto, o presidente deposto da Ucrânia Viktor Yanukovich estava na península da Crimeia. Acusado de ordenar um massacre de civis na repressão dos protestos que levaram à sua queda, Yanukovich foi buscar abrigo na única região do país que não aderiu em nenhum momento à mobilização contra seu governo. Enquanto ucranianos comemoram e planejam uma Ucrânia pró-Europa, na Crimeia a população continua olhando para o leste, e vê uma oportunidade para se juntar a Moscou.
A Crimeia, uma península que fica no Mar Negro, é a região mais distante da capital Kiev. Essa distância não é apenas física, mas também étnica e cultural. Atualmente cerca de 60% da população da península se identifica como etnicamente russo e fala russo em vez de ucraniano. A península tem uma administração autônoma, com uma Constituição diferente da ucraniana. Além disso, a maior cidade crimeia, Sevastopol, abriga uma base naval russa com um efetivo de 25 mil homens.
O motivo para essa aproximação da Crimeia com a Rússia é histórico. A região foi anexada ao território russo no século XVIII, e foi efetivamente controlada por Moscou até a década de 1950. Na época, tanto a Rússia quanto a Ucrânia eram repúblicas socialistas da União Soviética. O líder soviético Nikita Kruschev decidiu, em 1954, passar o controle da península para Kiev. Quando a União Soviética entrou em colapso e a Ucrânia conquistou a independência, na década de 1990, a região continuou como ucraniana, apesar de ter um status mais autônomo e abrigar a base russa.
Segundo o jornal Washington Post, parte da comunidade russa da Crimeia vê a crise ucraniana como uma oportunidade para se integrar à Rússia. Há um forte sentimento de se separar da Ucrânia, que se manifesta inclusive no Parlamento - há propostas para emendar a legislação, por exemplo, para definir Moscou como protetor da autonomia crimeia.
Esse tipo de sentimento pró-Rússia também foi visto nas ruas, durante a crise política. As poucas tentativas de se organizar protestos em Sevastopol similares aos de Kiev não foram bem recebidas. Os manifestantes foram hostilizados, acusados de "fascistas" e até agredidos fisicamente antes de a polícia intervir. Segundo a revista Time, uma organização da sociedade civil na cidade chegou até mesmo a escrever uma carta ao presidente da Rússia, Vladimir Putin, para pedir que Moscou enviasse tropas para "evitar o genocídio" na Crimeia.
A ação pode parecer extrema, mas tem precedente. Em 2008, a Rússia enviou tropas para a Ossetia do Sul, uma região que queria a independência da Georgia e que tem maioria étnica de russos, sob o argumento de prevenir um genocídio. A guerra entre Rússia e Georgia durou cerca de uma semana, com a vitória dos russos. Ainda é cedo para dizer se o mesmo pode acontecer na Crimeia. Mas, a julgar pelos sinais, a população local parece favorável a uma intervenção: em um ato simbólico, a bandeira russa foi hasteada nesta segunda-feira (24) em frente ao prédio da prefeitura de Sevastopol.
Homens armados que se auto-proclamam membros da polícia de choque ucraniana desmantelada Berkut fazem barreira usando a bandeira da Rússia em estrada que liga a Crimeia à cidade ucraniana de Armyansk, em 28 de fevereiro de 2014
História turbulenta

A península no Mar Negro, que tem território equivalente à metade da Suíça e clima comparável ao da Costa Azul, é dona de um passado turbulento. Os povos nômades citas, gregos, tártaros e turcos dominaram a região da Crimeia durante séculos, até a chegada dos russos.

"A Crimeia sempre foi a menina dos olhos do Império Russo", explica Wilfried Jilge, especialista em Leste Europeu da Universidade de Leipzig, na Alemanha. Segundo ele, o sonho dos czares russos era ter acesso ao Mar Negro – o que foi concretizado por Catarina, a Grande. Em 1783, a Crimeia foi anexada ao Império Russo.

Apenas em 1954 a península foi incorporada administrativamente à Ucrânia, então parte da antiga União Soviética, por iniciativa do então chefe do Partido Comunista, Nikita Khrushchev.
Após a queda da URSS, a Crimeia passou integrar a independente Ucrânia. A situação gerou forte tensão, pois cerca de dois terços da população da península tem origem russa. Em 1992, o Parlamento russo considerou inválida a decisão de Khrushchev, e a Crimeia declarou sua independência do governo ucraniano.

Coube a Kiev acalmar os ânimos na região. Em 1994, porém, os conflitos voltaram a se acirrar. Yuri Mechkov foi eleito presidente da Crimeia e voltou a alinhar a região com a Rússia. Mas desta vez, a Ucrânia conseguiu manter a Crimeia sob sua tutela. Mechkov foi retirado do poder e fugiu para território russo.
A disputa entre Rússia e Ucrânia pela divisão das frotas do Mar Negro, porém, durou até 1997, quando os dois lados assinaram um acordo. Ficou acertado que Moscou retiraria suas tropas da Crimeia até 2017. Sob a presidência de Victor Yanukovytch, porém, o acerto foi esticado para 2042.

Maioria pró-Rússia

Não existem pesquisas de opinião recentes que revelem como a população da Crimeia enxerga seu futuro. Mas há dados que mostram essa percepção indiretamente. Segundo um levantamento de junho do ano passado, apenas 31% dos moradores da Crimeia apoiam a Ucrânia como um Estado independente. Outros 36% são contrários – em sua maioria russos.
Também há ucranianos e tártaros vivendo na Crimeia que rejeitam qualquer separação. Em 1944, Stalin mandou deportar povos tártaros da Crimeia para a Ásia Central por eles supostamente terem colaborado com o regime nazista durante a Segunda Guerra.

Há pelo menos 20 anos os tártaros começaram o movimento de retorno à Crimeia. Atualmente a comunidade de 300 mil pessoas já responde por 14% da população. "Os tártaros da Crimeia são tradicionalmente pró-Ucrânia e enxergam seu futuro em um Estado ucraniano", pontua Yilge.

Acordos de gás e petróleo

Mas não apenas questões políticas estão em jogo na Crimeia. Caso essa região realmente se separe da Ucrânia, será um grande golpe para a economia do país. A principal fonte de renda da península até agora é o turismo – mas isso deve mudar em breve, pois há expectativas de exploração de grandes reservas de gás na região.

O governo da Ucrânia planejava assinar até 2013 um acordo com um consórcio internacional, liderado pela gigante americana ExxonMobil, para produção de gás e petróleo no Mar Negro. Mas a assinatura do contrato acabou sendo postergada.

A partir de 2017, cerca de 10 bilhões de metros cúbicos de gás devem ser produzidos, segundo expectativas do Ministério ucraniano de Energia. Isso iria reduzir substancialmente a dependência dos ucranianos do gás que vem da Rússia.

Fontes: Revista Época e Revista Carta Capital.


quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

O que está por trás das manifestações na Ucrânia?


Kiev, Ucrânia, dia 22 de Janeiro de 2014. Confrontos entre polícia e manifestantes deixam ao menos quatro mortos. Fotos mostram tanto manifestantes quanto policiais usando armamento de munição real. Mas se o dia produziu imagens chocantes da verdadeira guerra nas ruas de Kiev, o início do descontentamento popular é bem anterior. Os atuais protestos começaram em cerca de 21 de Novembro de 2013, e recebeu o nome de Euromaidan, literalmente “Praça Europeia” em ucraniano, pois o principal local dos protestos é a Praça da Independência na capital Kiev. Porque até oitocentos mil ucranianos estão na Praça, alguns ocupando tem meses?
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Foto: Flickr/Ivan Bandura
Alguns dos motivos dos protestos são quase universais, e encontram similaridade nos protestos brasileiros, como violência policial e corrupção política. Mas uma característica essencial e única, presente até no nome do movimento, é a relação da Ucrânia com a União Europeia. A suspensão, pelo atual governo ucraniano de Viktor Yanukovych, do Acordo de Associação com a União Europeia e também de um acordo de livre comércio com a UE, em Novembro, gerou polêmica na opinião pública. O acordo é um modelo que estabelece parâmetros de cooperação entre a UE e um país não membro, e é visto muitas vezes como primeiro passo para futura associação daquele país com a UE.
Os motivos para a suspensão? Teoricamente, algumas exigências da UE em relação ao estado da democracia no país; um enfraquecimento da economia ucraniana, que, segundo os críticos do acordo, seria piorada pela assinatura; finalmente, uma não admitida pressão política e diplomática russa, que objetiva a entrada da Ucrânia na União Aduaneira da Bielorússia, Cazaquistão e Rússia, embrião de uma planejada União da Eurásia; a Ucrânia já é membro observador na organização, assim como diversos outros membros da Comunidade de Estados Independentes, que corresponde geopoliticamente às ex-Repúblicas soviéticas, excetuando os países bálticos e a Geórgia.
Uma das principais preocupações da política externa russa na última década é com a expansão “ocidental” para dentro do que ela considera sua esfera de influência: o leste europeu, o Cáucaso e a Ásia central. Esse o motivo da atual pressão política russa em um governo ucraniano tido como conservador e pró-Rússia. O mapa abaixo ilustra a situação econômica da região. Em azul claro, países em diferentes estágios de negociação para entrada na União Europeia; em azul escuro, a União Europeia; em vermelho claro, países da Comunidade dos Estados Independentes; em vermelho, a União Aduaneira da Bielorússia, Cazaquistão e Rússia e, no centro do cenário, a Ucrânia, em laranja.
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A importância da Ucrânia, para a Rússia, não é apenas econômica. É também geopolítica. O país é parte do trajeto de alguns dos principais gasodutos e oleodutos russos, que permitem a negociação da vasta reserva energética com a Europa ocidental; a própria Ucrânia é “refém” de importações de energia russa. Além disso, na Ucrânia está sediada a Frota Russa do Mar Negro, uma das mais importantes do país; após a dissolução da União Soviética, parte dos navios ficou com a Ucrânia, para sua própria marinha, em troca do arrendamento de bases em território ucraniano. No mapa abaixo, a importância da localização ucraniana fica evidente, entre a OTAN, azul escura, e a Rússia, em vermelho. Países em azul claro, como a Geórgia, estão em negociação para entrada na OTAN.

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A relação entre Rússia e Ucrânia após a dissolução da União Soviética foi, e ainda é, complicada. Os países tem contendas territoriais não resolvidas e parte da população ucraniana vê a influência russa no país como excessiva, imperialista e negativa. Exemplo disso foi após a Revolução Laranja, em 2004, quando as eleições ucranianas foram anuladas por fraudes e corrupção, supostamente incentivadas pela Rússia. Viktor Yushchenko foi declarado o vencedor. O derrotado? Viktor Yanukovych, atual Presidente, visto como conservador e Pró-Rússia. Exemplo desse descontentamento ucraniano com a Rússia foi dado na derrubada da estátua de Lênin, na Praça da Independência de Kiev, algumas semanas atrás.

Obviamente, essa retrospectiva dos interesses russos no país e da relação entre Ucrânia e Rússia está resumida, peço desculpas por isso. A Ucrânia, hoje, além de imensa importância geopolítica, representa uma economia emergente de mais de 300 bilhões de dólares, setores industriais estratégicos e uma forte produção agrícola. Não é sem motivos que a União Europeia a “corteja”, assim como a Rússia não pretende abrir mão de sua influência no país. Mas não são apenas números e política que explicam os protestos ucranianos. Eles são, na verdade, demonstração de algo muito mais social e cultural.
A Ucrânia existe, como país independente, desde 1991. Antes disso, o atual território da Ucrânia existiu como entidade independente apenas no século XII, quase mil anos atrás. Em 1783, a anexação do que restava da Ucrânia ao império russo foi completa. Desde a Alta Idade Média, existe uma cultura ucraniana, com seu idioma, seus costumes, diferentes tribos, como os cossacos de diversas regiões. Mas, hoje, no século XXI, o que significa ser ucraniano? Essa pergunta, ou melhor, a falta de uma resposta para essa pergunta, que explica os protestos em Kiev.
Apenas hoje está se formando uma juventude, universitária e esclarecida, que nasceu e cresceu em uma Ucrânia independente. Qualquer ucraniano com mais de vinte e três anos de idade, nasceu ainda na União Soviética. A nova geração busca o rompimento com esse passado e se vê como parte da Europa, um povo europeu. A geração intermediária, em torno de quarenta anos de idade, segundo as pesquisas, vê a Ucrânia como uma “força regional”, que deve buscar conciliar o Ocidente e o Oriente; cresceram em uma União Soviética em processo de abertura, com autonomia regional ucraniana, embora dentro do Estado comunista. Finalmente, há a antiga geração, que vê a Ucrânia não como europeia, mas como “russa”, um país com suas particularidades que o aproximam do Oriente, não necessariamente da Europa.
Foto tirada em 19 de Janeiro mostra, nos protestos, ao centro, um dos líderes da oposição ucraniana, o Campeão Mundial de Boxe Vitali Klitschko.
Foto tirada em 19 de Janeiro mostra, nos protestos, ao centro, um dos líderes da oposição ucraniana, o Campeão Mundial de Boxe Vitali Klitschko.
As centenas de milhares de pessoas que estão nas ruas de Kiev lutam pela melhoria de seu país. Protestam contra um governo que acreditam ser corrupto e conservador, e buscam o caminho que acreditam ser apropriado, tanto para a economia quanto para a cultura e sociedade do país: a aproximação com a Europa. Em contraste, antigos setores da sociedade ucraniana (Yanukovych, em sua juventude, foi do ainda Partido Comunista da Ucrânia soviética) mantém o país em suas antigas relações, supostamente freando a democratização do país ainda pubescente. Uma geração intermediária fica no meio-termo, buscando um papel ucraniano de “encruzilhada” entre Ocidente e Oriente, enquanto as ruas pegam fogo. Ainda não sabemos qual será o resultado, mas, mais do que afetar as relações externas ucranianas e a legitimidade de seu governo, o que virá das ruas é a resposta da pergunta: o que é ser ucraniano?

FONTES: Globo News; BBC; Xadrez Verbal.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

A queda do império cacaueiro no Sul da Bahia.

 
A vassoura-de-bruxa é considerada uma das mais sérias doenças para a economia dos países produtores de cacau, porque é capaz de reduzir drasticamente a produção dos cacauais ou levá-los a total debilitação se medidas de controle fitossanitárias não forem tomadas com persistência. Um exemplo típico do que este infortúnio pode fazer é o caso do Equador, que apesar de ter ocupado a primeira posição no mercado internacional de cacau no século passado, chegando a produzir mais amêndoas do que todo o continente africano, até 1905, reduziu a sua participação para apenas 38% do mercado mundial, no início deste século. No Brasil nos estados da Amazônia e Pará onde a enfermidade existe há muito, visto que o cacau é originário daquela região, e é bastante disseminada, as perdas de frutos pela doença chegam a 40 %. Em Rondônia, a situação ainda é pior e as perdas já foram verificadas em até 90 % dos frutos que poderiam geram riquezas e rendas para os agricultores.   
A doença é causada pelo fungo Crinipellis perniciosa que infecta tecidos vegetativos em crescimento (almofadas florais, brotos, lançamentos de folhas novas, flores e frutos); quando ocorre a infecção nestas partes da planta, verifica-se um superbrotamento de tecidos e um "inchaço", vulgarmente conhecido como "vassoura-de-bruxa".
Anteriormente restrita a Região Amazônica de onde nunca deveria ter escapado, a doença foi detectada no sul da Bahia no ano de 1989, exatamente no município de Uruçuca, distante 40 km da cidade de Ilhéus. Inicialmente de forma tímida e rara, mas que causou um verdadeiro alvoroço entre os técnicos-cientistas, produtores, e a população de maneira geral; a partir desta data a CEPLAC formou um grupo de trabalho composto por fitopatologistas do Centro de Pesquisas do Cacau e também da Amazônia, onde o órgão mantém atividades e possuía maior intimidade com o problema, visando dimensionar a área afetada e estabelecer estratégias imediatas para tentar conter a doença.
O maior desastre para a cacauicultura baiana foi o fato de que o comportamento da moléstia na Bahia, ter sido diferente do que se verificava na região norte do Brasil. Atribui-se esse fato a diversos fatores: o relevo acidentado predominante na propriedades baianas, a contigüidade das plantações de cacau formando verdadeiros lençóis da cultura, favorecendo a disseminação, o índice pluviométrico caracterizado por uma constância de chuvas durante todo ano, e a descapitalização dos produtores pelos baixos preços internacionais. Por isso a "vassoura-de-bruxa", doença de convivência viável na região amazônica através de podas e remoções das partes afetadas, encontrou aqui o seu ambiente ideal, tal como o próprio cacaueiro encontrou as melhores condições para vicejar, no final do século passado às margens do Rio Pardo.
 
A "vassoura-de-bruxa" foi a responsável pelo abandono do cultivo do cacau no Suriname e na Guiana. O fungo é nativo da Bacia Amazônica de onde propagou-se para a Bolívia, Amazônia brasileira, Colômbia, Guiana, Equador, Peru, Suriname, Venezuela e as ilhas indo-ocidentais de Granada e Trinidad. Era de esperar-se que a grande distância entre a região norte e o sul da Bahia limitasse a propagação natural da doença; temendo a possibilidade desse contágio, a CEPLAC estabeleceu barreiras contra o transporte de material botânico e cacau em amêndoas da Amazônia para a Bahia e o Espírito Santo; era a CAVAB que foi logicamente desativada quando ocorreu o contágio. A doença ainda não foi detectada na Jamaica e nem no continente africano o que explica a posição elevada no mercado mundial dos países da África Ocidental.
A queda de produção em todos os países infectados varia de ano à ano, a depender das condições climáticas de cada safra. Isto porque, uma vez instalada, não é possível livrar-se da enfermidade. Assim as perdas são acentuadas, porém variáveis. Em Trinidad, por exemplo, em 1944, no auge da infecção, houve um ataque de 68% do total da colheita. Em 1959, no Equador, 80% dos frutos estavam quase ou totalmente danificados e imprestáveis para o aproveitamento.
 
A chegada do cacau ao sul da Bahia.

Originário da Bacia Amazônica, o cacau foi trazido para o sul da Bahia pelo colono francês Frederico Warneau, em 1746, encontrando condições climáticas e telúricas excelentes, semelhantes as da região originária (ANDRADE, 2003).
O cacaueiro começa a dar frutos três anos após seu plantio, fornecendo três ou quatro colheitas anuais. O sistema utilizado para o cultivo do cacau em Ilhéus aproveita as árvores nativas de grande porte para sombreamento do cacaueiro, método conhecido regionalmente como cabruca. Esse modelo de produção contribuiu para a conservação de grandes extensões da floresta tropical primária.
A elevação da então vila de São Jorge dos Ilhéus à condição de cidade em 1881 e o aumento na produção do cultivo, que alcançou, nove anos após denota a importância que o cacau obteve, balizando a economia e influenciando a sociedade.
A elevação à condição de cidade em 1881 confirma o crescimento do cultivo desse produto, alcançando, nove anos após, o status de principal produto do município. De acordo com Alvim e Rosário (1972) já em 1895, 112 mil sacos de cacau eram exportados, chegando a 29 mil toneladas anuais em 1910, tornando Ilhéus um dos maiores produtores de cacau do mundo.
A alta produção originou necessidades que foram prontamente resolvidas pela riqueza proveniente da cacauicultura. Os capitais gerados com a produção do cacau foram responsáveis, em grande parte, pela construção de estradas de ferro, do porto e do aeroporto de Ilhéus, interligando a cidade a rede de comunicações, facilitando o escoamento da produção. Além da infra-estrutura logística, a economia cacaueira contribuiu na construção da rede de iluminação elétrica e de esgoto, escolas, igrejas, prédios, etc. Mais do que influência econômica, o cacau motivou a geração de uma cultura.
Vinháes (2001) afirma que esse episódio transformou Ilhéus, e toda a região cacaueira, num verdadeiro "eldorado", atraindo imigrantes de toda a parte do Brasil. A cidade crescia, tornando-se a mais próspera do interior da Bahia. A população também crescia, tendo um aumento de mais de 700% num período de trinta anos, saltando de 7.629 em 1890 para 63.912 em1920 (ANDRADE, 2003).

 

A crise na lavoura.

A primeira grande crise ocorreu em 1930, quando predominava a produção de cacau comercial. Nesse período, houve uma queda brusca de preço das commodities internacionais, entre elas o cacau e seus derivados, decorrente da queda da Bolsa de Valores de Nova Iorque (crise de 1929) e que atingiu a economia mundial como um todo. O agravante da situação já preocupante da lavoura cacaueira se deu com a Segunda Guerra Mundial que influiu ainda mais para a desestruturação de muitos produtores.
Além desses problemas, o produtor estava endividado e desanimado com o cultivo do cacau, pois não havia perspectivas de mudanças no quadro em que se encontrava a “civilização do cacau” naquele ano. Foi justamente nesse cenário de desalento que o Governo Federal criou a CEPLAC (Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira), vinculada ao Ministério da Fazenda, pelo Decreto nº 40.987, de 20 de fevereiro, com sede em Ilhéus. O objetivo da CEPLAC foi o de alongar por mais tempo a dívida dos produtores, devida a importância dessa lavoura para a economia regional. (ROCHA, 2008).
A luta da CEPLAC pela lavoura cacaueira encontra ao longo de sua trajetória pesados obstáculos e, no final da década de 1980, os produtores enfrentam a sua pior crise. “A orgulhosa região do cacau viu sua receita descer ladeira abaixo, depois de chegar a um patamar de exportação em torno de um bilhão de dólares, para ficar em torno de 100 milhões de dólares” (AGORA, nov./1999, p. 2). A região cacaueira baiana viu-se, então, com um grande número de desempregados, desesperados à procura de ocupação para sobreviver. Muitas pessoas enfrentaram dificuldades extremas por falta de trabalho nas fazendas, inflando assim, as favelas dos centros urbanos de cidades como Itabuna e Ilhéus.
 

Terrorismo Biológico no sul da Bahia?
 
Em quatro entrevistas a Revista VEJA, o técnico em administração Luiz Henrique Franco Timóteo, baiano, 54 anos, contou detalhes de como ele próprio, então ardoroso militante esquerdista do PDT, se juntou a outros cinco militantes do PT para conceber e executar a sabotagem. O grupo, que já atuava em greves e protestos organizados na década de 80 em Itabuna, a principal cidade da região cacaueira da Bahia, pretendia aplicar um golpe mortal nos barões do cacau, cujo vasto poder econômico se desdobrava numa incontrastável influência política na região. O grupo entendeu que a melhor forma de minar o domínio político da elite local seria por meio de um ataque à base de seu poder econômico – as fazendas de cacau. "O imperialismo dos coronéis era muito grande. Só se candidatava a vereador e prefeito quem eles queriam", diz Franco Timóteo. Link da reportagem (http://veja.abril.com.br/210606/p_060.html).
A suspeita de terrorismo biológico ganha força, através de um documentário elaborado por Dílson Araújo, chamado de "O nó: Ato humano deliberado."
O documentário traz uma série de depoimentos e documentos oficiais, além de histórias de perdas financeiras, familiares e humanas ocorridas nessas terras a partir do fim dos anos 80 do século passado. Foi o fim de uma era, e é impossível traduzir em palavras a tragédia que se deu nessa região, onde mais de 250 mil trabalhadores perderam seus empregos nas fazendas de cacau e o êxodo para as cidades chegou a 800 mil pessoas.
Pesquisadores ouvidos no documentário atestam que o inchaço das favelas e todos os problemas sociais que vieram a reboque, como a falta de infraestrutura e a violência, têm relação direta com a bruxa que assombrou a região. Suas consequências foram também ambientais, com a destruição do sistema da cabruca em 600 mil hectares de fazendas. Muitas áreas onde a Mata Atlântica permanecia intacta, em uma convivência produtiva e ecológica de mais de dois séculos, foram transformadas em pastagens e a madeira nativa foi alimentar as serrarias. O Nó apresenta várias, sem deixar de mostrar que os cacauicultores foram vítimas duas vezes. Uma quando a vassoura se instalou, com galhos amarrados diligentemente por mãos assassinas; a outra quando a Ceplac recomendou providências equivocadas, que levaram os produtores a assumir dívidas que lhes atormentam até hoje. Os bancos exigem que eles paguem pelo que não surtiu efeito e o governo não assume o ônus pela falha.

 

Documentário "Os Magníficos".


 

 

O documentário mostra a ascensão, queda e superação da lavoura cacaueira do sul da Bahia através do drama de três personagens, que tiveram uma queda vertiginosa em seu padrão social e precisaram se adaptar e reconstruir suas vidas a partir de uma nova realidade.
Constituído a partir de depoimentos, o documentário indica que a reconstrução da vida dos ex-barões do cacau podia significar, inclusive, o isolamento e a invisibilidade social. Apesar de não pretender realizar um relato analítico da tragédia social ou da crise econômica da zona cacaueira, a produção aborda o efeito desta época nos homens e mulheres que a viveram.
Os Magníficos explora os motivos e o processo desta decadência, retratando não só a busca de uma reconstrução sócio-econômica, mas também individual e espiritual.
O diretor Bernard Attal utilizou o padrão estético da obra de Welles para fotografar e ambientar seu filme que utiliza imagens de arquivo para ilustrar o processo de apogeu da época de ouro da região, antes da passagem pelo declínio econômico, causado pela praga “vassoura-de-bruxa”.
Attal fez o registro audiovisual da atual realidade da zona cacaueira, com imagens das fazendas, prédios, casarões, ferrovias – as fazendas sem donos, os secadores sem função, as igrejas sem fiéis, as cidades esvaziadas.
Os depoimentos são o eixo principal do documentário e toda a narração do filme é feita pelos entrevistados, que contam sua história e tratam do processo interno pelo qual passaram e ainda estão vivenciando.
A principal força de Os Magníficos está na sua atualidade e humanidade. Os depoimentos são divididos em três fases: lembranças da vida áurea; queda social e existencial; e nova postura de cada um com a vida e futuro. Por conta disso, o documento é organizado em três capítulos: A Soberba, A Decadência e A Superação.


Fontes:
 
Portal São Francisco. Disponível em: <http://www.portalsaofrancisco.com.br/alfa/cacau/cacau-4.php>
 
Pimenta na Muqueca. Disponível em: <http://www.pimenta.blog.br/tag/dilson-araujo/>
 
Os Magníficos. Ano: 2009. Gênero: documentário. Direção: Bernard Attal. Co-produção: Bernard Attal Ondina Filmes IRDEB - TVE Bahia.
 


MARTINS, P. T. A. Os reflexos da crise da lavoura cacaueira nos ecossistemas de manguezal do município de Ilhéus, Bahia. Geografia - v. 16, n. 1, jan./jun. 2007 – Universidade Estadual de Londrina, Departamento de Geociências.

 

RODRIGUES, K. G.; SILVA, C. de. C. A PRODUÇÃO DO ESPAÇO NO MUNICÍPIO DE ITABUNA: EXPANSÃO E TRANSFORMAÇÃO URBANA APÓS A CRISE DO CACAU. Associação Brasileira de Geógrafos - AGB, 2010.

 

 

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Trabalho escravo infantil no sudeste da Ásia: O CASO DA NIKE.



O processo geopolítico e econômico de reorganização mundial que vivemos hoje, chamado genericamente de globalização, caracteriza-se pela abertura das fronteiras econômicas. A velocidade dos meios de comunicação e transporte possibilita um intercâmbio de ideias e mercadorias com uma rapidez jamais conhecida na história do homem.
As grande empresas - os oligopólios ou as transnacionais - suprem as suas necessidades de mão-de-obra e matérias-primas em todo o planeta. Instalam-se fábricas, entrepostos de comércio e centro financeiros em todos os países. Isso possibilitou a produção de mercadorias em maior escala com custo mais baixo, valendo-se da difusão da tecnologia. O resultado é o mais fácil acesso aos bens de consumo. Tudo ficou mais simples, mais barato e abundante. Em termos de trocas de mercadorias e de ideias, vivemos em um só mundo.
O resultado mais visível é a "democratização" do consumo. As lojas brasileiras são um belo exemplo, com milhares de produtos MADE IN CHINA e de outros Tigres Asiáticos. Podemos comprar praticamente em qualquer esquina, de fraldas descartáveis a caviar. Essa é a definição "positiva" do processo globalizador.
Porém, mesmo deixando de lado a pergunta que pouca gente faz - Será que precisamos disso? -, há outros aspectos importantes: por que as empresas transnacionais instalam suas fábricas na Tailândia, na Indonésia, Em Taiwan, no Camboja, em Cingapura, na Malásia, na Coréia do sul ou em Hong Kong? A resposta é simples e encontra-se em qualquer caderno de economia dos jornais brasileiros: nesses países, a mão-de-obra é barata e as matérias-primas custam pouco.
Na Indonésia, por exemplo, excetuando-se a pequena elite que ganha bem, o salário médio da maioria dos operários é de US$21,00  MENSAIS. Os Tigres Asiáticos ainda oferecem a "vantagem" da inexistência de uma legislação trabalhista mais rígida, que garanta direitos básicos dos trabalhadores, como indenização, seguro-saúde, férias, 13º salário e aposentadoria, que são comuns no Ocidente, inclusive nos países subdesenvolvidos, a periferia do capitalismo central, onde o Brasil se situa.
Por que grande parte dos trabalhadores aceita US$ 21,00 mensais? Por que eles têm poucos direitos trabalhistas?
As respostas são complexas, mas podem ser resumidas. A maioria dos países asiáticos enfrentava desemprego crônico, corrupção endêmica e, não menos importante, trabalho escravo e prostituição infantil.
Por exemplo: a maior vendedoras de artigos esportivos para o mundo é a Nike, que terceiriza toda a produção. A Nike encomenda bola em fabricadas situadas nos países onde a mão-de-obra é mais barata. Em alguns desses países, como na Indonésia, as bolas eram fabricadas por crianças a partir de 6 anos, trabalhando em locais perigosos e insalubres. Como denunciaram a OIT e a Unicef, era trabalho escravo, "feito por mãos pequenas, capazes de darem pontos minúsculos". segundo a Unicef, em 1993, na Tailândia, para as crianças não fugirem, um fabricante manteve trancado o galpão onde elas trabalhavam. O galpão incendiou e morreram duzentas pessoas, a maioria crianças.
O Paquistão é um dos maiores produtores de bolas do mundo. Uma família com quatro costuradores consegue costurar, em média, 80 bolas mensalmente, a US$ 1,20 cada, possibilitando uma "renda" de US$ 96,00. No Vietnã, onde as transnacionais também encomendam bolas, o salário médio dos costuradores é de US$ 32,00 mensais. Uma pesquisa da Toy Manufacturers of América e da Unicef constatou que 90% dos brinquedos oriundos da Ásia são fabricados por mão de obra infantil, ocupando às vezes crianças de 5 anos. Na Tailândia, uma fábrica chegou a ter noventa trabalhadores infantis escravos.
No Brasil, a grande fabricantes de bolas é a Penalty. Aqui se paga mais do que na Ásia. Os costureiros de bola geralmente  são presidiários, que recebem em torno de R$ 240,00 por mês.
A questão Nike

No caso da Nike, os trabalhadores que são pagos um dólar por dia, se queixam de ter de limpar as instalações que funcionam em torno da fábrica como punição por atrasos. Mas o que é mais chocante submissão sexual a que os trabalhadores são obrigados pelos patrões. 85% dos funcionários são mulheres com uma média de idade abaixo de 23 anos. Além disso, os funcionários de nove unidades de produção são obrigados a trabalhar mais horas que o permitido por lei e sem acesso a cuidados médicos.

A Nike lidera o mercado para a indústria de calçados esportivos e chegou a dominar 37 por cento dele. A transnacional gasta mais de um bilhão de dólares por ano em publicidade e o salário mensal de seus executivos e estrelas (Phil Knight afirma que mais de 75 milhões de dólares por ano e Michael Johnson mais de 20) pode pagar milhares de salários anuais dos trabalhadores escravos do sudeste asiático. Em 1999, a empresa teve um faturamento de mais de 10 bilhões de dólares. Um funcionário da Nike teria de trabalhar dois ou três meses para comprar um par de sapatos que ela faz, ou 98.600 anos para chegar ao lucro anual.
A Nike tem custo mínimo na produção de seus produtos o que permite um excessivo gasto em marketing e pesquisa de mercado. A revolução que a Nike criou no mercado, funciona de uma forma insana, se paramos para pensar. Além de propaganda gratuita em seus produtos, eles conseguiram convencer milhões de pessoas que é de extremo bom gosto exibir seu logotipo, convencendo até os mais novos que é necessário, essencial para sua vida ter uma marca dessa empresa e assim ser aceito por outros de sua idade.
Essas imagens entram em nosso subconsciente sem percebermos, e quando temos que escolher um calçado ou acessório escolhemos os símbolos familiarizados como que por instinto. A fórmula do sucesso da Nike é muito simples: produzir acessórios de qualidade a baixo custo.
Como isso e possível?
Explorando milhões de pessoas miseráveis nos países onde a situação econômica e mais crítica, onde podem fazer seus operários trabalharem 12 horas por dia ganhando menos de 30 centavos por dia. A Nike tem fábricas ao redor do mundo, especialmente em países subdesenvolvidos, onde as leis são escassas e onde os direitos humanos não são respeitados. A fábrica da Indonésia emprega trabalhadores menores de idade, crianças de 12,13 anos trabalham turnos de 12 horas em condições tão horríveis que seria difícil achar algo parecido em nosso país. Justificativas poderiam ser apresentadas se a companhia fosse uma pequena empresa local, mas estamos falando de um dos maiores impérios do mundo. A custa de mães solteiras que em um país pobre e islâmico, não conseguem encontrar um trabalho digno para alimentar seus filhos, sendo assim devem se submeter a uma vida de semiescravidão. Quando ativistas a favor dos direitos humanos começaram a investigar os estabelecimentos da Nike na Indonésia, não podiam acreditar em que seus olhos viam, além da vida de semiescravidão de seus operários, ainda são forçados a trabalhar com produtos químicos altamente tóxicos e sem nenhuma proteção.
Essa fábrica se transformou em um alvo para ativistas a favor dos direitos humanos ao redor do mundo. A Nike tem fábricas nos países mais miseráveis do mundo, onde lhes garante mão-de-obra barata e sem ter que cumprir nenhum dos deveres de um empregador de um país desenvolvido.
Bolas de Futebol da Nike são feitas em pequenos quartos sem janelas, por velhos jovens e crianças sentados no chão de cimento em pequenas aldeias do Afeganistão.
Tênis da Nike vem de suas putrificas fabricas no Vietnã, Indonésia Camboja e China.
Vale salientar que a Nike é só um exemplo. Essa situação de trabalho escravo infantil se aplica a outras marcas do milionário mercado (explorador) esportivo, tais como Adidas, Puma, Mizuno, All Star (Nike), etc. e inclusive empresas brasileiras como a gaúcha Penalty, que tem bolas fabricadas no Paquistão. Se duvidam, peguem seus tênis, bolas, camisas dessas marcas e observem a etiqueta. Se tive um "Made in..." com países do sudeste asiático, provavelmente você está consumindo um produto feito por mãos semiescravas, e o pior: grande possibilidade ser uma criança.

ISSO É GLOBALIZAÇÃO, ISSO É CAPITALISMO!!!
Fontes: CHIAVENATO, Júlio José, 1939 - Ética globalizada $ Sociedade de consumo/ Júlio José Chiavenato - 2 ed. reform. - São Paulo: Moderna, 2004.


terça-feira, 9 de abril de 2013

Os conflitos de terra na Amazônia.

 
Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima e parte dos estados de Mato Grosso, Maranhão e Tocantins apresentam os maiores índices de ameaças de morte envolvendo disputas por terra, água e razões trabalhistas no Brasil. A informação é da Comissão Pastoral da Terra (CPT), que divulgou relatório sobre os conflitos no campo em 2011. De acordo com o documento, houve um aumento de 15% no total de ocorrências, em comparação com o ano anterior.
As ameaças envolvem trabalhadores rurais, pequenos proprietários, quilombolas, indígenas, sem-terra e madeireiros, grileiros, fazendeiros e agentes públicos. Os confrontos entre esses grupos saltaram de 1.186 para 1.363, segundo a CPT. Em todo o País, o número de ameaçados de morte evoluiu de 125, em 2010, para 347, em 2011.
“A Amazônia está manchada de sangue e esta mancha continua se espalhando”, declarou Laisa Santos, irmã da líder extrativista Maria do Espírito Santo, executada a tiros junto com o marido, José Cláudio Ribeiro, em maio de 2011, no Sudeste do Pará.
Além das ameaças de morte, a Amazônia concentra 69% do total de conflitos por terra e 79,3% dos assassinatos. Outros dados sobre a região também assustam. De acordo com a Comissão, a região reúne a participação de 52,2% do total das ações violentas dos fazendeiros em todo país; 67,7% do total das ações violentas dos empresários; 86,6% das ações dos grileiros; 96,8% das ações dos madeireiros; 65,1% das ações violentas das mineradoras e 80% das ações dos pistoleiros.
Em todo o País, o crescimento de confrontos mais expressivo diz respeito à luta pelo direito à terra, que compreende as ações ou ameaças de despejos e expulsões, destruição de bens materiais e outras formas de coação contra pequenos proprietários ou famílias que vivem em ocupações, assentamentos ou territórios tradicionais, pistolagem e outros casos.
Para a CPT, o crescimento do número de conflitos prova a necessidade de uma reforma agrária que democratize o acesso às terras produtivas. Para o coordenador da CPT, Edmundo Rodrigues Costa, os dados também apontam para a omissão dos governos federal e estaduais. Para ele, a pouca participação do poder público incentiva e financia essa violência.
“Os dados que a CPT registra, como tem sido dito em diversas oportunidades, são só a ponta de um iceberg. Há muito mais conflitos, violências, dor e morte na imensidão deste Brasil indígena e rural que nunca serão divulgados. O isolamento das comunidades, a falta de sensibilidade diante da situação dos trabalhadores e de um olhar mais atento impedem que a sociedade chegue ao conhecimento desta realidade”, afirma, em nota, a Comissão Pastoral da Terra (CPT).
 
 
***Alguns casos famosos de execução por causa da posse de terras***
 
CHICO MENDES:
 
Se Chico Mendes já incomodava os ricos e poderosos com suas manifestações contra o desmatamento, ele passa a incomodar muito mais quando começa a ganhar destaque na imprensa internacional e a receber prêmios pelo mundo. Por toda parte, ele ouvirá ameaças de morte. Até que ela virá, conforme anunciada
A luta de Chico pela proteção da floresta e dos povos que a habitam faz com que os bancos estrangeiros suspendam financiamentos prometidos para empreendimentos que viriam a prejudicar a floresta, como asfaltamento de estradas e construção de prédios. Isso é bater de frente com os interesses de empresários e fazendeiros como Tavares. Chico acredita que o trabalho sujo de matá-lo tenha ficado a cargo dos irmãos Darly e Alvarino Alves da Silva, fazendeiros.
O fato é que Chico os incomoda mais e mais. Ele impede que os fazendeiros desmatem as terras que compraram. Depois, por causa da pressão estrangeira, o governo desapropria um seringal para transformá-lo em reserva extrativista, reivindicação de Chico. Na tentativa de deter Darly, Chico aciona alguns conhecidos para investigarem se o fazendeiro tem crimes nas costas. E tem. Com isso, um juiz decreta a prisão de Darly. Só que o tempo passa e ninguém prende o criminoso, talvez porque o escrivão da polícia local seja irmão dele. Chico acaba ficando numa situação ainda mais difícil.
Chico escreve cartas para toda a imprensa anunciando seu assassinato para breve, mas ninguém dá atenção. Até que um dia, ao abrir a porta de casa na intenção de sair para tomar banho, Chico é baleado e morre, bem diante de sua esposa e filhos.
 
 
DOROTHY STANG:
A Irmã Dorothy Stang foi assassinada, com seis tiros, um na cabeça e cinco ao redor do corpo, aos 73 anos de idade, no dia 12 de fevereiro de 2005, às sete horas e trinta minutos da manhã, em uma estrada de terra de difícil acesso, a 53 quilômetros da sede do município de Anapu, no Estado do Pará, Brasil.
Segundo uma testemunha, antes de receber os disparos que lhe ceifaram a vida, ao ser indagada se estava armada, Ir. Dorothy afirmou «eis a minha arma!» e mostrou a Bíblia. Leu ainda alguns trechos deste livro para aquele que logo em seguida lhe balearia.
No cenário dos conflitos agrários no Brasil, seu nome associa-se aos de tantos outros homens, mulheres e crianças que morreram e ainda morrem sem ter seus direitos respeitados.
O corpo da missionária está enterrado em Anapu, Pará, Brasil, onde recebeu e recebe as homenagens de tantos que nela reconhecem as virtudes heróicas da matrona cristã.
O fazendeiro Vitalmiro Moura, o Bida, acusado de ser o mandante do crime, havia sido condenado em um primeiro julgamento a 30 anos de prisão. Num segundo julgamento, contudo, foi absolvido. Após um terceiro julgamento, foi novamente condenado pelo júri popular a 30 anos de prisão.
 
 
JOSÉ CLÁUDIO & MARIA DO ESPÍRITO SANTO:
O casal de lideres extrativistas José Claudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo da Silva foi executado em Maio de 2011 na cidade de Nova Ipixuna, no sudeste do Pará, cidade a 390 quilômetros de Belém.
A suspeita de Organizações Não Governamentais (ONG’s) e da família de Ribeiro é que ele tenha sido executado por madeireiros da região. Silva era considerado sucessor de Chico Mendes, em referência ao líder dos seringueiros do Acre que foi morto em 1988 por sua defesa da Amazônia.
O casal saiu do Projeto de Assentamento Agroextrativista Praia Alta Piranheira, localizado a cerca de 50 quilômetros da sede do município de Nova Ipixuna, quando foi  cercado em uma ponte por pistoleiros. Ali, eles foram executados a tiros.
José Claudio da Silva vinha recebendo ameaças de madeireiros da região desde 2008. Segundo informações do CNS, desconhecidos costumavam rondar a residência do casal disparando vários tiros para tentar intimidá-los. José Cláudio da Silva era um dos principais defensores da preservação das floresta amazônica após a morte de Chico Mendes e constantemente fazia denúncias sobre o avanço ilegal na área de preservação onde trabalhava por madeireiros para extração de espécies como castanheira, angelim e jatobá.
 
 
Causas do conflito
A Amazônia, por meio do planejamento regional, sempre foi vista como a fronteira de recursos naturais do Brasil, representadas pelas propostas a seguir:
  • Projetos incentivados pela Sudam, voltados para a exploração da madeira e agropecuária;
  • Projeto Grande Carajás, destinado à extração e exportação de minérios;
  • usinas hidrelétricas que exploram o po­tencial hídrico dos rios. As políticas responsáveis por esse planejamento regional transformaram a Amazônia em um grande investimento de capital.
Os grandes projetos e a construção de rodovias atraíram para a Amazônia grandes fluxos migratórios provenientes do Centro-Sul e do Nordeste.
Essa "conquista" da Amazônia desencadeou uma série de conflitos sociais  envolvendo posseiros, grileiros, empresários, jagunços, empreiteiros, peões e indígenas. O resultado foi um grande número de mortos.
 

• Posseiros  são agricultores que cultivam pequenos lotes, geralmente há muitos anos, mas não possuem o título de propriedade da terra. Eles têm a posse da terra, mas não os documentos legais registrados em cartórios, que garantem a sua propriedade. São vítimas de fazendeiros e empresas.
• Grileiros são agentes de grandes proprietários de terras que se apropriam ilegalmente de extensas porções de terras, mediante a falsificação de títulos de propriedade. Com a ajuda de capangas e jagunços, expulsam posseiros e índios das terras. As terras "griladas" passam ao controle dos novos "proprietários".
• Empresários são pessoas ou empresas que adquirem enormes extensões de terra na Amazônia, algumas vezes com títulos de propriedade duvidosos.
• Jagunços são homens armados, contratados por grileiros, empresários ou empreiteiros para patrulhar suas terras e expulsar posseiros ou indígenas.
• Empreiteiros são pessoas que contratam os trabalhadores para as grandes fazendas. São também chamados de "gatos" ou intermediários.
• Peões são trabalhadores rurais, recrutados pelos "gatos". Ganham baixos salários e, muitas vezes, trabalham sem carteira assinada, não se beneficiando dos direitos trabalhistas. Eles se iludem com promessas de um enriquecimento que nunca acontece e ficam sempre devendo ao patrão, não podendo deixar o emprego.